Pode parecer um assunto estranho, ou até mesmo um tabu, mas é uma das conversas mais importantes que tenho no consultório. Como gastroenterologista, eu garanto: o cocô fala, e ele diz muito sobre a sua saúde intestinal.
No dia a dia, nos preocupamos com o que comemos, com a qualidade do nosso sono e com nossa energia. Mas poucos de nós temos o hábito de olhar para o vaso sanitário antes de dar descarga.
Esse simples ato de observar é, na verdade, uma forma gratuita, diária e poderosa de prevenção e autoconhecimento. As suas fezes são o “relatório final” do seu complexo sistema digestivo. Elas nos dão pistas valiosas sobre como seu corpo está processando os alimentos, absorvendo nutrientes e lidando com inflamações.
Mas, o que exatamente devemos observar?
Os 3 Sinais que o Seu Intestino Envia
Quando falamos sobre “ler” as suas fezes, focamos em três pilares principais que você pode começar a monitorar hoje mesmo:
1. O Formato (e a Consistência)
Existe uma ferramenta médica muito útil chamada Escala de Bristol, que classifica as fezes em 7 tipos, variando de “caroços duros e separados” (tipo 1, constipação severa) até “totalmente líquida” (tipo 7, diarreia intensa).
- O Ideal: O que buscamos é um equilíbrio. As fezes ideais são geralmente os tipos 3 e 4: em formato de salsicha, lisas ou com algumas pequenas rachaduras na superfície, e que saem com facilidade, sem dor ou esforço excessivo.
- Sinais de Alerta: Fezes muito ressecadas (tipos 1 e 2) indicam constipação e podem estar ligadas à baixa ingestão de fibras, desidratação ou trânsito intestinal lento. Fezes pastosas ou líquidas (tipos 5 a 7) indicam um trânsito muito rápido, má absorção ou um processo inflamatório/infeccioso.
2. A Frequência
Não existe um número mágico que sirva para todos. O “normal” é, na verdade, um intervalo: pode variar de três evacuações por dia até três por semana.
O mais importante aqui não é se comparar com outra pessoa, mas observar o seu padrão. A “mudança persistente” que mencionamos no post é a chave. Se você sempre foi ao banheiro uma vez ao dia e, de repente, passa semanas indo a cada três dias (ou vice-versa), isso é um sinal de que algo mudou e merece atenção.
3. A Cor
A cor normal das fezes é o marrom (castanho), em suas diversas tonalidades. Isso se deve à presença da bile, que é processada durante a digestão.
- Alterações Pontuais: Às vezes, a comida altera a cor. Beterraba pode deixar as fezes avermelhadas; o açaí ou o uso de suplementos de ferro podem escurecê-las. Isso é temporário e normal.
- Sinais de Alerta (Cores que Pedem Investigação):
- Fezes Pálidas ou Esbranquiçadas (Acolia): Podem indicar um problema no fígado ou na vesícula, mostrando que a bile não está chegando ao intestino.
- Fezes Pretas (Melena): Quando parecem “borra de café”, podem sinalizar um sangramento na parte alta do sistema digestivo (como estômago ou duodeno).
- Fezes Vermelhas (Hematoquezia): A presença de sangue vivo pode indicar um sangramento na parte baixa do intestino (cólon, reto), podendo ser desde fissuras e hemorroidas até condições mais sérias.
O Que Fazer com Essas Informações?
Observar é o primeiro passo. O segundo é não se desesperar, mas também não ignorar.
Uma mudança de um ou dois dias pode ser apenas reflexo de algo que você comeu ou de um dia estressante. Mas se você tem notado mudanças persistentes—seja na cor, no formato ou na frequência—o seu corpo está pedindo uma investigação mais atenta.
“Cuidar com carinho” é também ter a coragem de olhar para os sinais que o seu corpo dá. Vamos entender juntos o que ele quer dizer?

